Jogo Cruzado: série retrata as mulheres nos bastidores do futebol

Na maré de séries brasileiras que buscam costurar humor com crítica social, Jogo Cruzado, produção nacional do Disney+, acerta em cheio ao usar o futebol como pano de fundo — mas não como tema central.

Aqui, o campo é a TV, o jogo é de vaidades, e os protagonistas são dois egos em colisão: Matheus Reis, um ex-jogador transformado em celebridade midiática, e Elisa Montes, uma jornalista esportiva brilhante e subestimada. Eles são jogados lado a lado — ou melhor, frente a frente — em um programa ao vivo que depende do embate entre os dois para alavancar audiência.

Se o futebol brasileiro já se transformou há tempos em um espetáculo que extrapola o gramado, os programas esportivos também deixaram de ser apenas sobre tática e estatística.

A série se inspira diretamente nesses painéis de debate, onde ex-atletas performam opinião e jornalistas precisam dobrar o machismo cotidiano com uma boa dose de cinismo e paciência. Tudo isso está em Jogo Cruzado. E por trás dessa alquimia de confronto calculado, existe uma figura silenciosa que puxa os fios: Suzana Hartman.

Interpretada com precisão afiada por Luciana Paes, Suzana é a herdeira e produtora do canal Antena Sport. Ela não aparece muito, não briga com ninguém — mas tem o poder de decidir quem brilha, quem cai e o que vai ao ar. Suzana é o retrato de uma geração de mulheres que aprenderam a comandar bastidores sem chamar atenção demais, que preferem manipular os tabuleiros a disputar peças.

Jogo Cruzado é uma série de TV de Ariana Saiegh com José Loreto (Matheus Reis), Carol Castro (Elisa)Disney+/Divulgação

Ela enxerga em Matheus e Elisa a química perfeita: um bate-boca entre um bonitão caído e uma mulher inteligente que não quer mais ser invisível. Para ela, isso é ouro. Para os dois, um castigo. Para o público, pura tensão no ar.

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É interessante como Luciana Paes, que já transita com facilidade entre o drama e o absurdo (basta lembrar sua força cênica em Um para o Outro ou Aqueles 15 segundos), aqui investe numa contenção quase fria. Suzana é elegante e dura. Amável até onde lhe convém. Ela não precisa gritar — sua autoridade está no silêncio comedidamente calculado.

O tempo de cena é curto, mas é ali que se entende quem realmente manda no jogo cruzado da série: os produtores, os donos do canal, os que sabem que escândalo dá audiência e que toda crise, se bem filmada, vira clipe de chamada.

Nos bastidores, a criação de Suzana veio de uma vontade declarada dos roteiristas de mostrar quem está por trás do espetáculo da TV esportiva brasileira — muitas vezes homens, mas cada vez mais mulheres que sabem fazer política com uma planilha de Ibope na mão. Suzana não quer mudar o mundo — ela quer entregar resultado. E talvez por isso seja tão fascinante: porque representa uma nova geração de poder feminino, que não precisa se desculpar por ter ambição.

Jogo Cruzado com Carol Castro e José Loreto
A série “Jogo Cruzado”, disponível no Disney+, tem José Loreto como protagonista, interpretando Matheus Reis, um jogador de futebol polêmico que se torna comentaristaDisney+/Divulgação

Em conversa exclusiva com a CLAUDIA, Luciana Paes contou como construiu essa mulher que não é vilã, mas também não é boazinha. Falamos sobre carreira, bastidores e o prazer de interpretar alguém que enxerga o jogo inteiro — mesmo quando finge que está apenas de canto. Porque Suzana Hartman pode não aparecer no outdoor, mas é ela quem decide quem merece um. E Luciana, com brilho sóbrio, entrega uma das personagens mais interessantes da temporada.

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CLAUDIA: Suzana Hartman é uma figura ambiciosa e estrategista. Como foi para você construir essa personagem que manipula os bastidores de um canal esportivo? Ela te desafiou de alguma forma?

LUCIANA: Então, a Suzana Hartman parece ser uma pessoa manipuladora, né? Mas, sabe, uma das coisas que eu tentei fugir é exatamente de fazê-la “declaradamente” manipuladora. Pra mim, ela é um mistério, e acho que ela acaba manipulando as pessoas porque você não sabe muito bem qual vai ser a reação dela em relação às coisas. Se ela vai estar em um dia bom, se ela vai estar achando graça, se ela vai mandar embora as pessoas… Ela é imprevisível, e eu acho que essa imprevisibilidade faz com que as pessoas fiquem pisando em ovos ao redor dela.

Claro que existem pessoas que são manipuladoras e sabem disso, mas tem pessoas que acabam manipulando o ambiente com a sua própria instabilidade emocional. Eu queria que a gente ficasse um pouco na dúvida se ela é só uma louca que deu certo, que vai dando sorte e as coisas vão acontecendo, ou se ela realmente é muito estrategista. Eu tenho minhas dúvidas.

CLAUDIA: Você interpreta uma mulher que aposta no conflito como estratégia de audiência. Na sua visão, até que ponto a Suzana acredita no que está fazendo — e onde entra a ambição pessoal dela?

LUCIANA: Ela tem essa coisa de ser do interior, de não ter ido para as mesmas faculdades internacionais que o irmão dela foi. Ela foi conquistando uma certa confiança na pauta. Tipo: “eu vim do interior mesmo, tenho uma outra trajetória, vocês falam que eu sou cafona, então bora abraçar tudo isso”. Ela dá uma abraçada na história de vida dela, e não acho nada vergonhosa a trajetória dela, mas que poderia ser comparada com o irmão, né? Por ela ser a filha ilegítima, ela faz disso a moeda de troca dela.

Mas acho que ela é bastante ambiciosa, acho que ela tem sede por poder, mas acho que ela tem um certo divertimento e, da mesma maneira que ela gosta muito, não leva tão a sério quanto o irmão. E esse ‘não levar a sério’ é um pouco a chave do sucesso dela também. E muito do sucesso que ela quer alcançar tem a ver com esfregar na cara do irmão. Pelos meios dela, pelos caminhos dela, ela conseguiu vencer o irmão, sabe? Ela conseguiu ter mais sucesso que ele, ser mais aceita na companhia do pai que ele.

Tem uma coisa meio familiar aí, como “uma vingancinha de família”. Não só para o irmão, mas para todo lado da família que acreditou que “é uma caipira. Uma caipira sem gosto”.

CLAUDIA: A série aborda temas como machismo no jornalismo esportivo e o culto à celebridade. Como atriz, o que mais te atraiu nesse universo de egos, mídia e futebol?

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LUCIANA: Tenho uma certa sorte, pra ser bastante sincera, que minha personagem, Suzana Hartman, não entende muito de futebol porque eu vim de uma família onde o futebol não era religião. Meu pai era engenheiro e ateu. Eu acreditava em Deus e não tinha futebol. Gosto muito de jogar ping-pong [risos], mas não tenho time, só torço para o futebol na Copa do Mundo [risos].

Mas acho lindo o esporte! Adoro jogar futebol, só não é uma coisa que eu entenda. E como tudo que envolve poder, ego, mídia, acho super, super interessante porque você tem a chance de ver as pessoas, como elas são na frente das câmeras e como elas são por trás. Você fica com uma riqueza muito grande de poder mostrar os personagens em estados muito diferentes, por isso acho fascinante.

CLAUDIA: Houve alguma preparação especial para viver alguém do mundo executivo da televisão esportiva? Você se inspirou em alguma figura real da mídia?

LUCIANA: Não me inspirei em ninguém da mídia real, mas uma coisa que foi muito legal é que a gente acompanhou como é a produção de material na ESPN e passei umas duas tardes, mais ou menos, acompanhando como é o dia a dia dos trabalhos, das pessoas que produzem conteúdo em jornalismo para esse universo do futebol.

CLAUDIA: O que diferencia Jogo Cruzado de trabalhos anteriores, em termos de tom e abordagem?

LUCIANA: Eu trabalhei em rádio no começo da minha carreira, então não era uma coisa completamente afastada do que eu conhecia, mas foi muito legal ver esse universo. Eu também sou fascinada pelas mulheres no futebol, porque é realmente um mundo bastante masculino. E como não tive isso, não tive essa proximidade com o futebol, sempre fico meio curiosa, assim, pra saber o que, por exemplo, move a personagem da Carol Castro na série. É muito interessante.

CLAUDIA: Nos bastidores, como foi a química com Carol Castro e José Loreto, que estão no centro do conflito da trama? Alguma cena te marcou especialmente?

LUCIANA: Bom, é só olhar para os dois! Os dois têm borogodó individualmente e borogodó juntos! Então, uma explosão de borogodó! [risos]. A gente gravou essa série com emoções de final de Copa porque, logo que a gente começou a gravar, o Loreto machucou o pé e, não lembro com certeza, mas acho que ele teve que operar. E logo depois a Carol também se machucou, se contundiu.

São realmente dois atores que levam a sério o seu trabalho, sabe? E se machucaram, se contundiram como verdadeiros jogadores de futebol. Então, a filmagem foi um pouco caótica por conta disso — os dois capitães de time contundidos. Mas, tirando isso, foi uma série maravilhosa de gravar! Me sinto orgulhosa de fazer parte desse timão regido por Pedro Amorim e Maria Farkas. Realmente, é um time de craques!

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