Isabel Allende caminhou para que escritoras mais jovens pudessem correr. Aos 83 anos, a chileno-americana tem livros publicados em mais de 40 idiomas, que somam mais de 80 milhões de cópias vendidas pelo mundo. São números impressionantes, que superam os de incontáveis sucessos editoriais masculinos.
Feminista antes mesmo de saber o que a palavra significava, Allende é uma mestra do romance histórico, criadora de um universo ficcional repleto de mulheres fortes que rompem os padrões de ontem e de hoje. Seu mais recente livro, Meu Nome É Emilia Del Valle (2025, Bertrand Brasil), mistura aventura, guerra, a busca pela própria identidade e a experiência do amor. Para a escrita, Allende realizou uma rigorosa pesquisa histórica.
Ela falou à CLAUDIA sobre o lançamento e os temas que saltam das páginas para dialogar com eventos da atualidade.
“As mulheres precisam estar unidas, informadas e sempre vigilantes, porque basta qualquer pretexto para que percamos os direitos que conquistamos com tanta luta. Não há garantia de nada. Um bom exemplo é o Afeganistão. Em 24 horas, as mulheres perderam tudo; o Talibã as reduziu à condição de gado. Tiraram o direito à educação, à saúde, à liberdade, ao controle de seus corpos e sua fertilidade. Vivemos em um patriarcado e há uma guerra não declarada contra a mulher. Nos Estados Unidos, há uma onda de machismo tóxico e misoginia”, disse sobre os direitos das mulheres, ameaçados sob o governo de Donald Trump.
Inspirações familiares
No novo livro, Emilia é uma romancista que se transforma em jornalista. Batalha para ser repórter em 1891, publicando inicialmente sob um pseudônimo masculino em um jornal de San Francisco, Califórnia. A certa altura, é enviada como correspondente de guerra ao Chile, país de origem do pai. Assim como Emilia, Allende também foi repórter. Mas o caminho foi inverso ao da personagem: a escritora começou no jornalismo e migrou para a ficção.
“A experiência do jornalismo me ajudou muito na literatura. Aprendi a escrever corretamente, a conduzir uma entrevista, buscar informações, investigar, trabalhar sob pressão, ouvir, observar. Mas não sinto falta do jornalismo; sinto-me muito mais confortável escrevendo ficção. Várias pessoas me perguntaram se Emilia é meu alter ego. Temos algumas coisas em comum — a escrita, o fato de que apenas conhecemos o nosso pai, mas tivemos um maravilhoso padrasto. Mas a verdade é que não pensei nisso ao desenvolver o personagem”, revelou.
“As mulheres precisam estar unidas, informadas e sempre vigilantes, porque basta qualquer pretexto para que percamos os direitos que conquistamos com tanta luta. Não há garantia de nada”
O romance é mais um onde personagens conhecidos de seu clássico incontornável A Casa dos Espíritos (1982) se cruzam. No livro de estreia, conhecemos a médium Clara Del Valle em um contexto que perpassa o golpe militar que derrubou o ex-presidente Salvador Allende, tio da escritora, em 1973.
Os Del Valle aparecem também em Filha da Fortuna (1989) e Retrato em Sépia (1990), que ganharam novas edições pela Bertrand, do Grupo Editorial Record. Ambos dialogam diretamente com a trama de Meu Nome é Emilia Del Valle, mas podem ser lidos de modo independente. Mesmo em Violeta (2022), os leitores encontram o legado do clã. Na história, que fala da gripe espanhola de 1920, Violeta é sobrinha de Clara, a clarividente.
“Meus netos dizem que eu tenho uma cidade em minha cabeça e que vivo nela. É verdade. Lá vivem também as centenas de personagens que habitam meus romances. Não é raro, portanto, que de vez em quando eles apareçam em outros livros. A família Del Valle é inspirada na de minha avó materna. Eram doze irmãos, todos muito originais e divertidos, uns loucos adoráveis. Com essa família, não preciso inventar muito. Eles me dão material suficiente para infinitos romances”, disse.
A guerra civil chilena que inspirou a trama
Meu Nome É Emilia Del Valle é muito original porque aprofunda um contexto histórico pouco explorado pela literatura: a guerra civil do Chile, em 1891, que deixou milhares de vítimas. Allende é capaz de construir um romance histórico em que a protagonista não se conforma com o papel de testemunha da história. Emilia quer ver a guerra de perto para contá-la, correndo risco de vida.
“Me interessei pela guerra porque tem semelhanças com o [golpe militar] que ocorreu em 1973. Em ambos os casos, um presidente progressista enfrentou uma forte oposição que polarizou o país e as forças armadas intervieram. Em 1891, o exército apoiou o presidente Balmaceda e a marinha, a oposição; o resultado foi uma cruel guerra civil. Em 1973, também houve um presidente progressista, Salvador Allende, que enfrentou uma grande oposição e tivemos um golpe militar e dezessete anos de ditadura. Tanto Balmaceda quanto Allende se suicidaram. Eles preferiram a morte a se render ou fugir para o exílio”, comparou.
Outro tema com paralelos contemporâneos é a imigração. Emilia cresce em um bairro com imigrantes, sobretudo latinos e chineses. Naturalizada norte-americana, a escritora não se detém em opinar sobre os acontecimentos recentes dos EUA: avalia as medidas de Trump contra imigrantes nos EUA como “cruéis”.
“Minha fundação trabalha com refugiados e imigrantes na fronteira. As medidas de Trump são cruéis. A ideia é aterrorizar os imigrantes; ninguém se sente seguro. O país vive um clima de hostilidade, violência e medo. Trump impôs sua marca de ódio, vingança e corrupção. Tudo mudou muito em poucos meses”, opinou.
“A política internacional de Trump cria confusão e medo, especialmente na economia. Não sei se existe uma estratégia da parte dele ou se é apenas improvisação.”
Prazer na velhice
Se Allende não se isenta de falar sobre questões sociais, tampouco se exime de falar sobre sua sexualidade e o uso recreativo de maconha, legalizada na Califórnia, onde vive com o marido, Roger. São tabus que a escritora faz questão de derrubar aos 83 anos.
“A maconha me relaxa. Sempre tenho trabalho e um livro na cabeça. Para fazer amor, preciso esquecer tudo isso. Um pouco de maconha me ajuda a deixar de pensar e a estar presente em meu corpo naquele momento que posso compartilhar com Roger”, disse.
“Existe um tabu contra a sensualidade e o amor entre as pessoas mais velhas. Parece indecente que os velhos se amem e queiram sexo, mas a realidade é que a busca de conexão e prazer sempre existe. A vida sexual na velhice depende muito da boa saúde e da vida a dois. A paixão da juventude muda e se torna algo mais tranquilo que precisa de tempo, ternura e bom humor. Na minha idade, ainda posso fazer amor e escrever cenas sexuais com facilidade”, contou.
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