Hoje, 29 de agosto, é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Criada em 1996, a data se consolidou como um marco na luta contra a lesbofobia. Para marcar a ocasião, conversamos com as artistas Alice Carvalho e Bianca Comparato, que estão à frente de um projeto inédito.
A dupla estreia a audionovela sáfica No Espaço Entre Nós, disponível na Audible. Idealizada por Elayne Baeta, a obra conta a história de amor entre Lilith – uma inteligência artificial em missão espacial, narrada por Alice – e a psicóloga Maitê Rangel, interpretada por Alanis Guillen.
Alice inicia a entrevista comentando os desafios de interpretar uma tecnologia de IA. Segundo ela, a maior dificuldade foi encontrar o equilíbrio entre a humanização e a natureza tecnológica da personagem. “Hoje em dia é muito fácil mimetizar o que está tão próximo de você. Então, o maior desafio foi encontrar o meio-termo entre essa coisa robótica e o lugar humano, que aparece cada vez”, explica.
Além da complexidade do papel, o trabalho em audiobooks também representa uma novidade em sua carreira. “Foi uma experiência muito legal, voltar um pouco no tempo e brincar de ser atriz de rádio”, conta. Ela destaca ainda a exigência técnica do formato: “A voz tinha que ser muito carregada e preenchida com o que a personagem estava sentindo, porque não havia minha imagem para completar as expressões.”
Arte como resistência: sotaque nordestino e quebra de estereótipos
Essa atenção ao detalhe conecta-se a um aspecto central da sua atuação: usar a arte como forma de expor ideias e desafiar conceitos enraizados na sociedade. Um exemplo é a decisão de manter seu sotaque nordestino na interpretação de uma inteligência artificial dotada de grande inteligência – gesto simbólico que rompe com visões xenofóbicas que historicamente associaram nordestinos a uma posição de inferioridade intelectual e cultural.
A trajetória de Alice com personagens sáficas, no entanto, não se limita a Lilith. Em junho, ela interpretou Otília, personagem da novela Guerreiros do Sol, que trouxe reflexões sobre os chamados amores “proibidos”.
Apesar de pertencer a contextos sociais distintos, Bianca enxerga semelhanças entre Otília e Lilith: “A gente consegue fazer um paralelo entre elas, porque uma mulher amando outra nos anos 20 era muito proibido. E, na atualidade, ainda tem um tabu, da galera se relacionando com o Chat GPT. Isso é realmente amor? Então, de certa maneira, a gente eleva essa pergunta e o paralelo de sentimentos de amores proibidos na nossa sociedade.”
Narrativas lésbicas no centro das produções
A análise leva Bianca a outro ponto essencial: a importância de colocar narrativas lésbicas no centro das produções. Além de dirigir No Espaço Entre Nós, ela também dá voz a Eva, esposa falecida de Maitê. Para ela, o projeto representa um avanço. “Eu me sinto muito orgulhosa de produzir algo assim, porque neste caso as personagens lésbicas não são ‘o outro núcleo’. É sobre elas”, afirma.
Bianca observa que, na maioria das produções artísticas, em especial em séries e novelas, ainda há pouco aprofundamento dessas temáticas, o que dificulta que o público se conecte com as histórias e complexidades envolvidas.
Por isso, em seus trabalhos, busca explorar cada roteiro de forma a valorizar essas especificidades. “Eu sinto que quando se coloca as personagens lésbicas como coadjuvantes, você não tem tempo de desenvolver aquela relação, porque está focada nas outras principais”, declara.
Mais do que espaço, ela destaca também a maneira como essas narrativas costumam ser retratadas: “Eu sinto que a sexualidade das mulheres lésbicas fica muito achatada, do tipo: são amigas, aí tem uma mãozinha, um beijo na bochecha. São poucas as exceções, como a Otília e a Lilith.”
A transição entre papéis intensos
Mas Bianca não para por aí. Na série Tremembé, ela interpretou a complexa personagem Ana Paula Jatobá – condenada pelo assassinato de Isabela Nardoni.
A atriz revela que a vivência com o papel foi extremamente desafiadora, desde a preparação até a divulgação, e considera a experiência um dos maiores marcos de sua carreira. “Estamos falando de duas pessoas condenadas por um crime terrível que negam até hoje que o tenham cometido. Então, como artista, eu trabalhei muito essa tensão e essa dúvida que existe dentro dessa personagem”, afirma.
A transição desse trabalho para a direção de No Espaço Entre Nós, no entanto, trouxe um respiro. Para Bianca, a audionovela funcionou como um bálsamo após a carga emocional de Tremembé. “Tem muita coisa minha nesse projeto. Eu realmente botei a mão em tudo que pude, fiz com muito carinho. Há muito da minha história aqui, uma expressão genuína da minha vida e da minha experiência, e eu espero que as pessoas ouçam e se emocionem”, conclui.
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