Todo mundo quer ser inteligente, ou pelo menos parecer. Publicar fotos de livros, comentar a peça em cartaz ou fazer textão sobre o último show “cult” virou quase regra em redes sociais como Instagram, TikTok e YouTube.
O interesse pela cultura é tão grande nessas plataformas que deu vida ao BookTok, um espaço dedicado a recomendações literárias na rede social chinesa. Em meio a dancinhas e conteúdos que prendem os usuários por horas, dar espaço para produtos culturais é, claro, positivo.
A nova tendência das redes: ser (ou parecer) intelectual
Mas essa onda de valorização ganhou contornos mais complexos ao se misturar a outro conceito que viralizou: o capital cultural. Vídeos curtos explicando que a elite não se diferencia apenas pelo dinheiro, mas também pelo repertório cultural, viralizaram.
Basicamente, quem nasce em famílias ricas herda, além da fortuna, hábitos, referências e conhecimentos que funcionam como marca de distinção social, de acordo com a sociologia de Pierre Bourdieu.
Na prática, pode significar crescer em uma casa com obras de arte, viajar para o exterior desde cedo, ter acesso a línguas estrangeiras ou simplesmente aprender, ainda criança, como se comportar em determinados espaços sociais, como um restaurante que exige regras de etiqueta.
Dicas para ‘aumentar’ o capital cultural viralizam
Diante disso, muitos usuários passaram a compartilhar dicas de como aumentar seu capital cultural e se tornar alguém mais culto. E foi aí que a discussão se abriu.
“Vivemos em uma sociedade que valoriza intensamente símbolos de conhecimento como forma de status. Nas redes, referências literárias ou filosóficas se transformam em sinais de distinção. Parecer intelectual tornou-se sinônimo de estar em sintonia com as tendências do momento”, diz Mara Leme Martins, psicóloga com PHD em medicina do comportamento.
A intelectualidade como status histórico
O desejo de ser reconhecido como intelectual, no entanto, não é novo. “A intelectualidade historicamente foi um símbolo de poder e também reforçava hierarquias coloniais e patriarcais”, aponta Mayra Cardozo, professora da Escola Paulista de Direito e da ESPM.
Ela exemplifica dizendo que ser intelectual quase sempre foi apenas uma possibilidade para homens brancos das elites. “Mulheres, pessoas racializadas e povos colonizados foram excluídos da produção de conhecimento, muitas vezes reduzidos a objetos de estudo”, explica Mayra.
Apesar dos avanços desde o século 20, como a permissão para que mulheres casadas frequentassem universidades no Brasil sem autorização do marido, a partir de 1962, ainda persistem barreiras que deslegitimam a autoridade intelectual de grupos marginalizados, na opinião da professora.
O risco da performance
O problema aparece justamente quando o interesse cultural deixa de ser genuíno e vira apenas uma encenação para agradar ao outro. “Quando a imagem importa mais do que a experiência, o aprendizado se torna vaidade. A pessoa passa a viver uma performance em vez de explorar sua curiosidade natural”, analisa Mara.
O risco disso chega, inclusive, nos aspectos psicológicos. “Performar um papel sem autenticidade cria tensão interna. A ansiedade aumenta porque a pessoa teme ser desmascarada. Isso pode gerar exaustão emocional e até problemas psicológicos mais graves. É como vestir uma roupa que não serve: socialmente funciona, mas por dentro há inadequação constante”, explica Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora na University of Saskatchewan, no Canadá.
Outro efeito é o impacto na autoestima. “Comportamentos centrados na imagem tornam a autoestima frágil, pois dependem da validação externa. A longo prazo, surge um vazio, já que a pessoa percebe que não é aceita por sua essência. Quando o interesse cultural é verdadeiro, há conexão e crescimento; quando é apenas performance, resta a sensação de não pertencimento”, completa Renata.
Autenticidade é a chave
Buscar conhecimento, livros e cultura é importante, mas é especialmente benéfico quando isso é feito com autenticidade. Como conclui Renata: “A autenticidade é o que dá solidez. É ela que transforma o contato com a cultura em experiência real de crescimento, e não apenas em uma vitrine para os outros.
Diferenciar o desejo de parecer culto para o outro ou apenas experimentar a intelectualidade de forma autêntica é uma saída. “A curiosidade verdadeira se revela no prazer em aprender e na disposição em reconhecer limites e dúvidas. Já a busca por status prioriza a forma como o outro enxerga. Sempre que um comportamento precisa de plateia, é sinal de que algo ali não é genuíno”, ressalta Mara.
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