Elektra: 20 anos depois, o filme retorna com sucesso à Netflix

Poucos filmes de super-heróis têm uma história tão contraditória quanto Elektra (2005). Na época, foi considerado um desastre de crítica e bilheteria, um dos piores títulos já feitos a partir de HQs da Marvel. Vinte anos depois, ressurge como um fenômeno cultural: está entre os 10 filmes mais assistidos globalmente na Netflix, ocupando a 4ª posição no Brasil.

Mas o legado de Elektra não é apenas o de um “flop” que ganhou nova vida no streaming — ele também escancara como Hollywood tratava atrizes mulheres e como uma mesma queda pode significar coisas bem diferentes para homens e mulheres.

O encontro de Garner e Affleck: dos quadrinhos ao altar

Jennifer Garner e Ben Affleck se conheceram nos bastidores de Demolidor (2003). Ele como Matt Murdock, ela como Elektra Natchios. O filme não foi um sucesso de crítica, mas o reencontro marcou o início de um romance que logo viraria casamento. Dois anos depois, em junho de 2005, já depois da estreia de Elektra, eles subiram ao altar.

E em dezembro daquele ano nasceu Violet, a primeira das três filhas do casal. O curioso é que Elektra, além de ter sido um marco de transição profissional para Garner, ficou também ligado para sempre ao início de uma vida pessoal intensa e acompanhada de perto pela mídia.

A chance e o tombo de Jennifer Garner

Jennifer Garner protagoniza Elektra, assassina da Marvel Comics.Netflix/Divulgação

No começo dos anos 2000, Jennifer Garner era uma das maiores promessas de Hollywood. Vinha do sucesso absoluto na TV com Alias e havia emplacado um hit de bilheteria com De Repente 30 (2004). Elektra seria a prova de fogo: a chance de se afirmar como protagonista de um blockbuster de ação.

Mas o projeto foi feito às pressas, com roteiro problemático e direção pouco inspirada. O resultado foi um filme de US$ 43 milhões que faturou apenas US$ 56 milhões mundialmente e foi massacrado pela crítica.

E aqui entra um ponto crucial: como bem analisou a Forbes anos depois, esse fracasso foi um divisor de águas na carreira de Garner. Diferente de Ben Affleck, que também afundou com DemolidorGigli e outras bombas, mas pôde reconstruir a carreira e se reinventar como diretor e até chegar a ser escalado como Batman, Jennifer não teve a mesma chance. Elektra praticamente matou sua trajetória como estrela de grandes estúdios. Uma misoginia típica da indústria.

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O peso do gênero em Hollywood

Atriz jennifer garner em elektra
Elektra é inspirado na tragédia grega Eurípedes e dirigido por Michael Cacoyannis.Netflix/Divulgação

É impossível falar de Elektra sem falar das diferenças de gênero na indústria. Affleck, como falei, mesmo depois de sucessivas decepções de bilheteria, conseguiu o espaço para uma reinvenção artística: brilhou em Hollywoodland (2006), renasceu como diretor com Medo da Verdade (2007) e chegou ao auge em 2013, ganhando o Oscar de Melhor Filme por Argo.

Garner, por sua vez, ficou presa a papéis de mãe, namorada ou esposa em filmes medianos — Valentine’s DayA Estranha Vida de Timothy GreenDraft DayHomens, Mulheres e Filhos. Mesmo sempre competente, raramente teve outra oportunidade como protagonista. E pior, há quem diga que Elektra não apenas fracassou: ele ajudou a congelar por uma década a ideia de filmes de super-heroínas, até a chegada de Mulher-Maravilha (2017).

Em resumo: os dois caíram juntos, mas apenas um teve a estrutura da indústria para se levantar. Uma história típica de Hollywood.

O retorno da personagem e a redenção tardia

Elektra é inspirado na tragédia grega Eurípedes e dirigido por Michael Cacoyannis.
Embora Jennifer Garner tenha recebido elogios pela sua performance, inicialmente o filme foi um fracasso de crítica e bilheteria.Netflix/Divulgação
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Nos quadrinhos, Elektra sempre foi um ícone: a assassina criada por Frank Miller em 1981, amada justamente pela ambiguidade entre heroína e vilã. No audiovisual, ganhou nova vida com Élodie Yung na série Demolidor da Netflix (2015–2018).

Mas foi só em 2024 que Jennifer Garner reencontrou a personagem — em uma participação especial em Deadpool & Wolverine. O momento foi recebido como uma espécie de acerto de contas com o passado, um gesto de carinho dos fãs e da própria atriz com sua trajetória.

Esse retorno explica em parte o fenômeno atual: quando a Netflix incluiu Elektra em seu catálogo em agosto de 2025, a curiosidade explodiu. Um filme antes esquecido virou atração global, com milhões de horas assistidas em poucos dias.

20 anos depois: do fracasso à cultura pop

O que a ressurreição de Elektra prova é que fracassos não são definitivos. O tempo, a nostalgia e o poder do streaming podem reverter narrativas. Hoje, o filme é visto com outros olhos: não como um grande exemplar do cinema de super-heróis, mas como um retrato de uma era em que Hollywood ainda não sabia lidar com personagens femininas nesse gênero — e de como a trajetória de Garner foi injustamente tolhida por isso.

Duas décadas depois, Elektra vive talvez seu momento mais curioso: o de ser simultaneamente símbolo de uma injustiça de gênero em Hollywood e, paradoxalmente, um hit de audiência em 2025. Jennifer Garner, agora respeitada e mais livre, finalmente assiste de camarote a essa reviravolta tardia. E nós, espectadores, podemos revisitar essa história com um olhar menos cruel e mais consciente sobre o que realmente aconteceu.

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