Você sabe quem costurou a roupa que está vestindo agora? Essa pergunta pode parecer simples, mas a resposta envolve uma cadeia de produção muitas vezes marcada por abusos e exploração.
Segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o Cadastro de Empregadores (conhecido como “Lista Suja”) foi atualizado em abril de 2025 com 155 novos nomes de empregadores flagrados em condições ilegais e degradantes de trabalho.
Embora a lista não seja restrita ao setor da moda, denúncias recentes ao MTE revelaram costureiras submetidas a jornadas de até 18 horas por dia, recebendo menos de R$ 1 por peça produzida. Esse é o “custo oculto” das roupas baratas ou das marcas que, mesmo no luxo, terceirizam sua produção sem transparência.
Casos recentes envolvendo grifes como Valentino, Dior e Armani mostram que não se trata apenas de fast fashion, mas de toda a lógica de produção acelerada e barata. Aqui, te convidamos a repensar de onde vem — e quem fabrica — a roupa que você usa.
Fast fashion: o custo oculto da pressa
“Se essas fast fashions vendem uma blusa por cinco ou dez reais, quanto que elas pagam pro funcionário da confecção?”, questiona a antropologista Maria Carmencita Job, em entrevista à CLAUDIA. A especialista levanta o questionamento sobre a que ponto as condições de trabalho se tornam deploráveis para garantir o lucro do fabricante.
Se em algum momento as coleções eram definidas por clima, como “primavera/verão” e “outono/inverno”, hoje, a moda se movimenta tão rapidamente quanto as microtendências na internet. É nesse contexto que vão aumentando as condições de escala (comercial) na mesma proporção que diminuem as condições de trabalho.
Não é só o fast fashion (nem só no Brasil)
O modelo de indústria rápida é o que mais explora as condições de trabalho de toda cadeia de produção. Mas o slow fashion não está isento dessa questão.
Segundo a Reuters, o mercado de luxo também está envolvido em denúncias. Em 2023, uma fábrica ligada à grife Valentino foi acusada de manter trabalhadores dormindo no local para ficarem disponíveis 24h por dia. O tribunal de Milão já investigou empresas dos grupos Armani e Christian Dior (LVMH) por exploração. E não para por aí.
Mas, afinal, como consumir marcas responsáveis?
Utilize ferramentas como o aplicativo Moda Livre
O aplicativo Moda Livre, criado pela Repórter Brasil, é uma das principais ferramentas para consumidores identificarem se uma marca de roupas está comprometida ou não com o combate ao trabalho escravo.
Ele avalia empresas a partir de quatro critérios:
- Políticas internas: se a empresa possui regras claras contra o trabalho escravo na sua cadeia de produção.
- Monitoramento: se a marca realmente fiscaliza fornecedores, acompanha terceirizadas e audita suas fábricas.
- Transparência: se publica informações sobre sua cadeia produtiva de forma aberta e acessível ao público.
- Histórico: se já foi flagrada em casos de exploração ou se tem registros positivos/negativos de fiscalização.
As marcas recebem uma classificação em verde, amarelo ou vermelho:
- Verde → A empresa possui políticas robustas, faz monitoramento ativo e tem histórico positivo.
- Amarelo → A marca adota algumas práticas, mas ainda não demonstra mecanismos fortes de fiscalização ou clareza total.
- Vermelho → Não possui medidas concretas, não divulga dados ou tem histórico negativo em casos de trabalho escravo.
Priorize marcas engajadas social e ambientalmente
Além de evitar o trabalho escravo, um consumo realmente responsável também considera impactos sociais e ambientais. Na prática, busque por empresas que:
- Têm certificações (como o Programa ABVTEX, que monitora fornecedores do setor têxtil, ou selos de sustentabilidade reconhecidos).
- Valorizam diversidade e inclusão (representatividade racial, combate ao racismo, igualdade de gênero, oportunidades para minorias).
- Garantem boas condições de trabalho (salário justo, contrato formal, ambiente seguro).
- Assumem compromissos ambientais (uso reduzido de água, reciclagem de tecidos, coleções menores e mais duráveis, menor emissão de carbono).
- Se posicionam publicamente contra violações de direitos humanos e ambientais, mostrando coerência entre discurso e prática.
Repensar o fast fashion
Apoiar marcas slow fashion não é apenas investir em peças com condições melhores e mais duráveis, mas também, apoiar empreendimentos que respeitam os trabalhadores e o meio ambiente. Além disso, consumir consciente significa pensar duas vezes antes de comprar para garantir que aquela peça comprada no impulso não será esquecida no armário.
Em resumo, como consumir marcas responsáveis?
- Consultar a Lista Suja do MTE ou plataformas como o app Moda Livre antes de comprar;
- Pesquisar denúncias relacionadas às marcas;
- Preferir slow fashion e marcas locais, que prezem por produção ética e em menor escala;
- Checar transparência: marcas sérias divulgam informações sobre a cadeia de produção e políticas trabalhistas;
- Valorizar a durabilidade: consumir menos, escolhendo peças que durem mais, reduz a demanda por produção acelerada.
Peça ajuda e denuncie
O Sistema Ipê, desenvolvido pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), é uma plataforma digital voltada para o registro e gerenciamento de denúncias trabalhistas, com foco especial em situações de trabalho análogo à escravidão, trabalho infantil e outras violações.
Para fazer uma denúncia, acesse a plataforma online do Sistema Ipê no site do Governo Federal ou disque 100.
Assine a newsletter de CLAUDIA
Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters:
Acompanhe o nosso WhatsApp
Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp.
Acesse as notícias através de nosso app
Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.