“Brasileiro tem dificuldade em aceitar o novo”, Edvana Carvalho sobre remake de ‘Vale Tudo’

Com sorriso espontâneo, brincos coloridos e uma energia cativante, a atriz Edvana Carvalho atendeu à chamada de CLAUDIA como quem recebe uma velha amiga. Falar sobre arte, história e educação parece-lhe tão natural quanto respirar. Afinal, dos 57 anos de vida, mais de 40 foram dedicados à carreira. Agora, ela se vira aos holofotes ao dar vida à personagem Eunice, no remake de Vale Tudo, dirigido por Manuela Dias. 

Sua trajetória, aliás, foi trilhada fora da curva: além de atriz, ela é arte-educadora, poetisa e apresentadora. Pode parecer muita coisa, sabemos, mas é que Edvana é daquelas artistas que enxergam a arte quase como um respiro à vida. Sendo uma mulher preta, então, entendeu logo cedo que ser atriz não seria o bastante – era preciso ir além. 

Da Bahia para o Brasil

Para chegar até aqui, ela precisou ocupar primeiro outros espaços. Nascida baiana, Edvana cresceu nos bairros da Liberdade e do Curuzu, em Salvador. Ali, já convivia de frente com a forte influência da cultura local. Por isso, ser atriz era um desejo que, desde pequena, esteve em seu imaginário. Não demorou muito, portanto, para que tivesse o seu primeiro contato com o teatro nas escolas públicas da capital baiana.

Ela começou no Grupo de Teatro do SESC/SENAC e, em 1990, passou a integrar a primeira formação do Bando de Teatro Olodum, grupo reconhecido nacionalmente pela força de sua arte negra.

“Fazer arte, seja dentro ou fora do bando de teatro Olodum, para mim é um ato político, e não partidário.”

Arte e educação como ato político

Não à toa, mesmo depois de muitos anos desde o seu primeiro passo no meio artístico, tomou a decisão de voltar às escolas públicas. Pensando nisso, resolveu criar a Aula Palestra, um espaço de troca de experiências sobre as lutas e trajetórias do professor, que também incentiva os alunos de Salvador e outras regiões do país a darem, enfim, forma aos seus sonhos.

A Roda de Conversa, projeto desenvolvido na Escola Municipal Padre Confa, em Salvador, é também parte do currículo extenso de Edvana. Nele, a intenção é trazer projetos culturais para as escolas baianas. 

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Não só a educação, mas também temas como o empoderamento feminino e racial e o etarismo atravessam a alma da dramaturga – provindos do acúmulo de dores que, depois de algum tempo, serviram como um empurrão para fazer diferente. Esses impulsos surgiram de forma espontânea ao longo de sua vida, tanto quanto sua forma de viver.

Viver para, da e de arte

Com um alto astral invejável, Edvana não mede palavras para dizer o que pensa.Vinicius Mochizuki/Divulgação

O rosto e presença da atriz deram vida a mulheres reais e sensíveis na dramaturgia brasileira. Uma delas foi a mística e carregada de axé, Inácia, personagem emblemática da novela Renascer (2024).

O sucesso foi tanto que a atuação chegou a ser aclamada pela crítica e recebeu o prêmio Potências na categoria Atriz Coadjuvante. Homenageada com o Umbutu: Potências Negras, ela também conquistou o Kikito de Melhor Atriz pelo curta “Fenda”, dirigido por Lis Paim.

Ainda no cinema, participou do sucesso Ó Paí Ó, dirigido por Monique Gardenberg, e de sua continuação, Ó Paí Ó 2, com direção de Viviane Ferreira. No streaming, se destacou na série Irmãos Freitas (2019), inspirada na vida do pugilista Arcelino Popó de Freitas e disponível na Netflix. Recentemente, também emprestou sua voz à personagem Ruth na animação Arca de Noé.

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Escrevivências no palco

Ao ouvir pela primeira vez o termo “Escrevivências“, criado por Conceição Evaristo, uma das maiores escritoras negras do Brasil, Edvana entendeu que era, enfim, hora de colocar no papel todas as suas vivências – e sobrevivências. “Até aquele momento, eu não me sentia dramaturga, embora eu já tivesse escrito uma peça. Parecia que essa palavra estava muito longe de mim. Eu não me sentia, porque o país foi feito para que eu me sentisse assim, sem poder”, diz. 

Para comemorar os 40 anos de carreira, então, decidiu estrear o monólogo Aos 50 –  Quem Me Aguenta?, escrito e protagonizado por ela mesma. No espetáculo, ela escancara as dores e delícias de ser uma mulher negra em sua maturidade. Com olhar apurado, a artista traz para o palco pautas como o sexo, envelhecimento, filhos, racismo, misoginia e relacionamentos ao ultrapassar as barreiras trazidas pelos 50 anos.

Imagem da atriz Edvana Carvalho, em seu monólogo
O monólogo aborda as inúmeras dificuldades de uma mulher preta +50.Tamires Ribeiro/Divulgação

Eunice, em Vale Tudo

Agora, Edvana aparece nas telinhas como Eunice, em Vale Tudo, uma excelente costureira, casada com o jornalista Bartolomeu (Luís Melo) e mãe de Fernanda (Ramille). Na versão original da novela, transmitida há 30 anos, a mesma foi interpretada pela atriz Iris Bruzzi. “Eu amava ela atuando, era uma mulher para cima, à frente do seu tempo, seja na moda ou na forma de tratar a filha. Mas era uma mulher branca, que vivia do salário do marido. Depois de 30 anos, isso não cabe mais”, explica. 

No remake, a personagem carrega novas cargas e funções: é avó, mãe solo e artista. A questão racial também trouxe outras camadas à novela, como na cena de racismo cometido por Odete Roitman (Debora Bloch) contra a costureira. Veja o trecho:

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A relação entre mãe e filha também abre espaço para conversas profundas sobre as novas formas de educar mulheres. “É lindo porque, geralmente, as mães pretas não têm tempo para dedicar ao filho. No máximo, você quer que ele não esteja com fome, que a polícia não pegue, que frequente a escola. Eunice é uma mulher preta que, por não passar por nenhuma dessas necessidades, tem tempo para conversar, dar conselho, ouvir a cria dela”, reforça. 

Sobre as críticas que estão feitas sobre a versão da novela, Edvana não hesita em dizer: Uma parte do povo brasileiro tem dificuldade em aceitar o novo, tem medo da mudança. As pessoas se agarram às coisas como elas eram e não querem abrir espaço como elas podem ser no presente”. 

Novos tempos, novos caminhares

Imagem utilizada na matéria
Edvana quer seguir ocupando diferentes espaços reverenciando sua ancestralidade.Vinicius Mochizuki/Divulgação

Quando questionada sobre o que gostaria de deixar para as próximas gerações de mulheres pretas na dramaturgia, a artista é direta:

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“Acho que já estamos deixando, ao dar continuidade ao trabalho de grandes nomes, como Léa Garcia e Zezé Motta. Foram anos lutando para uma atriz negra ser medida pela sua qualidade, e não pelo seu tom da pele. Eu levei mais de 40 para ser descoberta pelo Brasil sem nunca ter feito um protagonismo de verdade. A sociedade foi finalmente obrigada a parar para nos ouvir.”

Inquieta, Edvana Carvalho tem sede de mais. E, enquanto vê mudanças e algumas poucas vitórias surgirem, sonha com um futuro onde cada porta aberta, seja na arte ou na educação, sirva de convite para que outras mulheres como ela possam, enfim, prosperar — em todos os sentidos da palavra.

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